wLet Me Live

"It's a beautiful day
The sun is shining
I feel good
And no-one's gonna stop me now"

(Queen)




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Queen - Lazing On A Sunday Afternoon
ABWH - Let's Pretend
Renaissance - Let It Grow


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wSegunda-feira, Março 23, 2009


"Pensar agressivamente é outra forma de treinar a mente. Instituições de Direito são especializadas nisso. Um aluno de direito aprende como apresentar argumentos contrários, para rebater e refutar as opiniões de outros, e não escutar de forma passiva. Isso não é samurai! A meta é uma mente faminta e investigadora, que busque os verdadeiros significados e conexões, que enxergue fraquezas e defeitos nas políticas e nos procedimentos, nas opiniões e nos planos de ação. Uma mente ativa busca encontrar as melhores respostas. Ela não aceita a primeira idéia que surge; ela desafia cada idéia a testar sua vivacidade.

Fazer isso é mais fácil do que parece. Quando você pensar que descobriu a resposta a um problema, verifique quantas respostas a mais você consegue descobrir. Em seguida, escolha a melhor. Após, force uma visão contrária e discuta os motivos pelos quais aquilo está errado. Imagine que você seja o chefe; a partir dessa perspectiva, como percebe a sua resposta? Nunca pare no primeiro pensamento que vier à sua mente. Isso é um pensamento preguiçoso."

(Bill Diffenderffer)


(ao som de Compay Segundo - Lo Mejor De La Vida)

publicado às 21:32

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wQuarta-feira, Agosto 15, 2007


"Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela."

(Caio Fernando Abreu)


(ao som de Keith Jarrett Trio - Still Live)

publicado às 22:01

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wDomingo, Julho 01, 2007


"- Eu faria diferente, começou Raskólnikov. Trocaria o dinheiro deste modo: contaria os primeiros mil rublos três ou quatro vezes, para a frente e para trás, olhando as cédulas; depois faria o mesmo com o segundo milhar. Chegando à metade, olharia uma nota de cinqüenta rublos contra a luz para ver se era falsa e diria: 'Temo receber, como um parente meu outro dia, uma nota falsa de vinte e cinco rublos'. Depois enredaria o funcionário com uma história. A seguir contaria o terceiro milhar. 'Desculpe-me, diria, enganei-me na sétima centena, mas não estou nem certo.' Assim, passaria do terceiro ao segundo milhar e retomaria ao primeiro, recontando todo o dinheiro. Tomaria uma cédula do primeiro e do quinto milhar, contrastava-as na luz e pediria ao funcionário para trocá-las. Confundia-o tanto que ele desejaria querer livrar-se de mim. Quando terminasse e tivesse ido embora, regressaria para lhe pedir uma nova informação. Este seria o processo por mim empregado."

(Fiódor Dostoiévski)


(ao som de Pink Martini - Hey Eugene!)

publicado às 23:14

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wSegunda-feira, Maio 28, 2007


"Uma vez, quando eu era menor ainda do que você, brincava com um espelhinho à beira de um poço da minha casa, eu morava numa fazenda meio selvagem. O poço estava seco e era bonito o reflexo do espelhinho correndo como uma lanterna pela parede escura, sabe como é, não? Mas de repente o espelho caiu e se espatifou lá no fundo. Fiquei desesperado, tinha vontade de me atirar lá dentro para ir buscar os cacos de meu espelho. Então alguém - acho que foi meu pai - levou-me pela mão e me consolou dizendo que não adiantava mais nada porque mesmo que eu juntasse, um por um, os cacos todos, nunca mais o espelho seria como antes."

(Lygia Fagundes Telles)


(ao som de Diana Krall - Collaborations)

publicado às 21:35

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wSegunda-feira, Maio 07, 2007


"Quando o carro novamente avançou pela Faria Lima e ele pôde ver o relógio brilhando no escuro, no alto, duas horas e quarenta e três minutos, onze graus, dentro do carro ao lado, duas horas e quarenta e quatro minutos, onze graus, um homem de cabelos grisalhos, sem música, sozinho, olhou para ele como se não o visse. Que ficaria assim um dia, dirigindo à toa, à noite, pelas ruas, cheio de memórias fatigadas sem presságio algum, ausências ocas, lembranças áridas, porque não faria nada com elas a não ser senti-las ácido, não seria necessário o rádio ligado nem direção alguma, não iria para lugar nenhum, negou, negou de novo, nunca haveria ninguém ao seu lado. Falaria consigo mesmo em voz baixa coisas sem importância, talvez cantasse repetindo nomes de outros tempos, de pessoas, cidades, livros, cruzaria de ponta a ponta a cidade que não teria fim, atravessando túneis, viadutos, por baixo, por cima da terra, que tinha medo da morte cega em seu encalço e das perdas e das marcas deixadas pelas perdas e mais além, das perdas tão completas que nem sequer deixavam marcas e do que não conseguiria lembrar, sentia pena dos cacos entre as mãos, tão pulverizados que mesmo que os apertasse com força não conseguiria arrancar nem uma gota de sangue."

(Caio Fernando Abreu)


(ao som de Tori Amos - Tales Of A Librarian)

publicado às 08:44

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wDomingo, Abril 22, 2007


"Mil vezes eu explicara isso ao pai. Mas ele ou se esquecia ou preferia adotar a própria técnica de dizer ou nomear as coisas. Colocava nos envelopes, em letras bem desenhadas e nítidas, FAZENDA SÃO JOAQUIM D'ARC, como se houvesse um santo a mais na família da heroína francesa.

No início, eu sentia vergonha quando o reitor, monsenhor Lapenda, entregava a correspondência dos alunos. Todos os pais, mães, tios e primos dos meus colegas colocavam o nome correto nos envelopes. Meu pai era o único que complicava, monsenhor Lapenda por diversas vezes pediu que eu o corrigisse, depois se habituou - e eu também.

Bem verdade que cheguei a lhe escrever uma longa e esclarecedora carta explicando o nome de nossa fazenda. Não adiantou. Preferi não criar atrito com ele por tão pouco.

Muitos anos mais tarde, depois de um almoço dominical em minha casa - eu já estava casado com minha primeira mulher - fui descansar no gabinete e ouvi o pai explicando para o meu sogro quem fora e o que fizera Joaquim d'Arc, um ser extraordinário, irmão de Joana, também herói e também santo, cujas proezas requisitavam uma guerra não de trinta, de cem mas de duzentos anos para poderem ter acontecido."

(Carlos Heitor Cony)


(ao som de Charles Lloyd - Lift Every Voice)

publicado às 17:03

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wSegunda-feira, Março 26, 2007


"Ninguém na janela para me chamar? Ninguém. 'Perdão, foi engano', disse a voz opaca, toda voz de engano fica opaca. Imagine se Lião escrevesse nesse tom assim opaco. Tão nítida. Nítida demais, os entendidos querem opacidade na linguagem, uma certa névoa confundindo sutilmente a silhueta das palavras. Biombos nas entrelinhas guarnecendo (amo essa palavra, guarnecendo) o mistério das letras. E as letras sem mistério em pleno coito com o Demônio. Há orgasmo? O Demônio vai e vem por linhas tortas, trançando os cabelos das amadas em nós inextricáveis. E quem vem trançar meu cabelo? Ai meu Pai. Disse que rasgou tudo. Melhor assim, contadinha. Ninguém vai mais ler que em dezembro a cidade inteira cheira a pêssego. Outra vez telefone?"

"Risinhos. Comentários de ambas sobre a beleza do dia. Lorena confessa que tem vontade de gritar num dia assim. Apanho um pedregulho que aperto na palma da mão com tanta força, ô, ele resiste, posso ficar apertando até o fim dos tempos e ele intacto. Que alegria me dão as coisas que resistem assim. Guardo-o na sacola e agora sou eu que tenho de gritar para o sol, Miguel! Nós te salvaremos, mundo. Nós te salvaremos - repito e meus olhos estão nadando em lágrimas."

"O cheiro dessa cera misturado ao cheiro da creolina são os dois cheiros fortes que me empurram até a infância a cera queimando no dente e a creolina que vinha da lata branca onde o Doutor Algodãozinho ia jogando os algodões usados. Outro cheiro que ficou fazendo parte dos cheiros é o de mijo. Mijo mesmo e não pipi ouviu Lorena? Cheiro de pipi até que fica perfumado quando é dito por você que abotoa a boquinha perfumada com pastilhas de hortelã. Sen-Sen. 'Refresca tanto o hálito' - ela disse com o hálito refrescado. Masco o meu chiclé para disfarçar o meu chiclé é mais forte mais fácil ah sim eu sei que não é fino. O fino é o Sen-Sen."

(Lygia Fagundes Telles)


(ao som de Buena Vista Social Club - Buena Vista Social Club)

publicado às 00:47

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wDomingo, Março 18, 2007


"Entra um outro. Traz uma pesada Olivetti. Tem até o manual original. Línea 98, instruciones para uso. Eu adoro fazê-los voltar quando tarzem coisas pesadas.
Ah, não! Outra dessas, não!
Ai, Não me diga que o senhor já tem muitas dessas?
Uma sala cheia.
Ai, meu Deus do céu. E agora?
Sinto muito. Você veio de carro?
Carro?! Que nada. Vim de ônibus.
YES!!! Vibro por dentro.
Tive que pedir pro cobrador deixar eu subir por trás.
Você sabe, né, senão como ia passar na catraca?
Puxa, sinto muito. Só para piorar, solto.
Olha eu te juro, se tivesse uma dessas a menos eu até que podia pegar essa sua. Mas... Tsc, tsc, tsc...
Hoje eu sou mais eu.
Grito bem alto:
PRÓXIMO!!!!!"

(Lourenço Mutarelli)


(ao som de PJ Harvey - Dry)

publicado às 22:28

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wQuarta-feira, Janeiro 10, 2007


"É que nunca temos, nem podemos ter jamais, idéia suficientemente clara desse aglomerado indistinto de desejos e temores a que chamamos de futuro; indistinto para nossa própria proteção, pois um pouco mais de exatidão nos lança num abismo fundo demais, em tudo e por tudo inimaginável. Portanto, falamos "amanhã" ou "segunda-feira que vem" mas, por precaução instintiva, colocamos nisso sempre o máximo de inexatidão e pontualidade: "Às cinco em ponto da tarde", mas na lógica e na razão, pois professamos num simples apontamento marcado o primado de nossa fé, com o mesmo contraditório sentimento de simultânea intimidade pertencente e estranheza total que temos quando, de repente, prestamos atenção numa coisa nossa a que estávamos alheios um instante antes, às vezes algo tão simples e peculiar, tão imediatamente apegado a nós mesmos com a nossa impressão digital ou nosso nome, e com isso nos lançamos num espaço mental desconhecido e vago como o próprio futuro."

(Márcio Borges)


(ao som de Milton Nascimento & Lô Borges - Clube da Esquina)

publicado às 22:08

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wQuarta-feira, Novembro 29, 2006


"Quando a histeria da sêde se acalmou, o suor escorria pelo rosto. Sua testa estava gelada, o esfôrço físico da luta deixara-o fraco e tonto. O sol rebentava fagulhas nas pedras. Débil, de estômago sêco, Martim nunca vira nada tão brilhante como o sol quando brilha. O descampado branco de luz o rodeava. O silêncio tinha um estrondo dentro de si. Aquela luz êle vagamente reconheceu: era a luz excessiva de que êle vive enquanto fôra um homem.

Cansado, respirou fundo. Ainda um espasmo tardio o percorreu em cólica. E afinal o último movimento frenético estacou como uma convulsão de cavalo. Quando abriu a mão que duramente se contorcera - viu então que o passarinho estava morto.

O homem espiou-o. Até as pernas já pareciam velhas e estremeciam leves à brisa. O bico era duro. Sem a ânsia, a ave.

De nôvo a cólera do homem acabara de se tornar um crime. Olhou o pássaro com atenção. Estava admirado consigo mesmo. É que êle se tornara um homem perigoso. De acôrdo com as leis de caça, um animal ferido se torna um animal perigoso. Olhou o passarinho a quem amara. Matei-o, pensou curioso.

Então, como se tivesse feito alguma coisa definitiva, o homem sóbrio e tranqüilo ergueu-se da pedra. O que havia de enlêvo incontrolável num ato é que todo ato o ultrapassava. Com alguma relutância obrigou-se a se erguer, e quisesse ou não era forçado a ir agora de encontro à recompensa do que êle próprio criara. Devagar levantou-se, evitando pensar que matara exatemente o que mais amara.

E como se tivesse sobrevivido à morte do pássaro, impeliu-se a olhar o mundo naquilo que êle próprio acabara de o reduzir:

O mundo era grande."

(Clarice Lispector)


(ao som de Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias & Xangai - Cantoria 1)

publicado às 18:21

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wSábado, Novembro 11, 2006


"Lucrécia Neves não seria bela jamais. Tinha porém um excedente de beleza que não existe nas pessoas bonitas. Era basta a cabeleira onde pousava o chapéu fantástico; e tantos sinais negros espalhados na luz da pele davam-lhe um tom externo a ser tocado pelos dedos. Sòmente as sobrancelhas retas enobreciam o rosto, onde alguma coisa vulgar existia como sinal apenas sensível do futuro de sua alma estreita e profunda. Tôda a sua natureza parecia não se ter revelado: era hábito seu inclinar-se falando às pessoas, de olhos entrefechados - parecia então, como o próprio subúrbio, animada por um acontecimetno que não see desencadeava. A cara era inexpressiva a menos que um pensamento a fizesse hesitar.

Embora não fôsse desta possibilidade de espírito e doçura que ela aproveitava. Era o que havia de rígido num rosto que a môça, se preparando, acentuaria. E uma vez pronta - disfarçando-se com uma futilidade que não procurava salientar o corpo mas os enfeites - sua figura se ocultaria sob emblemas e símbolos, e na sua graça intensa a moça parecia um retrato ideal de si mesma. O que não a alegrava - era um trabalho."

(Clarice Lispector)


(ao som de Tim Maia - Ao Vivo)

publicado às 20:22

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wTerça-feira, Outubro 17, 2006


"- Viver - essa difícil alegria. Viver é um jogo, é risco. Quem joga pode ganhar ou perder. O começo da sabedoria consiste em aceitarmos que perder também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos alguma coisa de extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar. Se sei perder, sei ganhar. Se não sei perder, não ganho nada, e terei sempre as mãos vazias. Quem não sabe perder, acumula ferrugem nos olhos e se torna cego - cego de rancor. Quando a gente chega a aceitar, com verdadeira e profunda humildade, as regras do jogo existencial, viver se torna mais do que bom - se torna fascinante. Viver bem é consumir-se, é queimar os carvões do tempo que nos constitui. Somos feitos de tempo, e isso significa: somos passagem, movimento sem trégua, finitude. A quota de eternidade que nos cabe está encravada no tempo. É preciso garimpá-la, com incessante coragem, para que o gosto do seu ouro possa fulgir em nosso lábio. Se assim acontece, somos alegres e bons, e a nossa vida tem sentido." *

(Hélio Pelegrino)

* resposta do psicanalista em entrevista à Clarice Lispector, encontrada no livro De Corpo Inteiro.


(ao som de Elizeth Cardoso - Canção do Amor Demais)

publicado às 22:41

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wQuarta-feira, Outubro 11, 2006


"Realmente nada aconteceu naquela tarde cinzenta de abril. Tudo, no entanto, prognosticava um grande dia. Ele lhe avisara que sua vinda constituiria o grande fato, o acontecimento máximo de suas vidas. Por isso ela entrou no bar da Avenida, sentou-se junto a uma das mesinhas da janela, para vê-lo, mal apontasse na esquina. O garçom limpou a mesa e perguntou-lhe o que desejava. Dessa vez justamente não precisava ficar tímida e ter medo de cometer uma gaffe. Estava esperando algúem, respondeu. Ele olhou-a um momento. 'Será que tenho um ar tão abandonado que não posso estar esperando alguém?' disse-lhe:
- Espero um amigo.
E sabia agora que a voz sairia perfeita: calma e negligente. (Ora não era primeira vez que esperava alguém.) Ele limpou uma nódoa inexistente no canto da mesinha de mármore e, após uma demora calculada, retrucou, sem ao menos olhá-la:
- Sim, senhora."

(Clarice Lispector)


(ao som de Sui Géneris - Pequeñas Anécdotas Sobre las Instituciones)

publicado às 18:41

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wQuarta-feira, Outubro 04, 2006


"Ele acabara de me transformar em mais do que o rei da Criação: fizera de mim a mulher do rei da Criação. Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com a mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável, pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos, e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir."

(Clarice Lispector)


(ao som de Elizeth Cardoso - Canção do Amor Demais)

publicado às 16:24

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wTerça-feira, Setembro 12, 2006


"- É assim mesmo - eu disse. - O mundo fora de minha cabeça tem janelas, telhados, nuvens, e aqueles bichos brancos lá embaixo. Sobre eles, não te detenhas demasiado, pois correrás o risco de transpassá-los com o olhar ou ver neles o que eles próprios não vêem, e isso seria tão perigoso para ti quanto para mim violar sepulcros seculares, mas, sendo uma borboleta, não será muito difícil evitá-lo: bastará esvoaçar sobre as cabeças, nunca pousar nelas, pois pousando correrás o risco de ser novamente envolvida pelos cabelos e reabsorvida pelos cérebros pantanosos e, se isso for inevitável, por descuido ou aventura, não deverás te torturar demasiado, de nada adiantaria, procura acalmar-te e deslizar para dentro dos tais cérebros o mais suavemente possível, para não seres triturada pelas arestas dos pensamentos, e tudo é natural, basta não teres medos excessivos - trata-se apenas de preservar o azul das tuas asas."

(Caio Fernando Abreu)


(ao som de Zeca Baleiro - Líricas)

publicado às 22:13

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